Homenagens são lindas, emocionantes, marcantes...mas eu sempre me pergunto por que a maioria delas é feita apenas quando o homenageado morre, quando esse não pode mais agradecer pelas palavras a ele dirigidas, quando ele não mais pode chorar ou até esboçar um sorriso ao concordar com o que está sendo dito?!
Era uma vez um menino nascido e criado nos subúrbios da cidade de Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde. Igual à maioria dos outros meninos pobres, era feliz com o pouco que tinha...o carrinho de lata, a bola de meia, o cão magro, mas muitos amigos, família grande e feliz e muitos e lindos sonhos. Vou ser médico quando crescer - dizia ele aos amigos. Depois de todos rirem muito, continuaram cantando 'mané nha 'rmun' e pedindo 'boas-festas' nas casas dos vizinhos. Era noite de ano-novo.
E chegou o ano novo e com ele renovação das esperanças, este ano há de ser melhor, vai chover mais, meus filhos vão continuar estudando, hei de começar a trabalhar, pensava em voz alta a mãe do menino, achando, talvez, que pensando em voz alta seus pensamentos chegariam mais rápido aos ouvidos de Deus.
Muitos 'manés nha r'muns' depois o menino, homem agora, desculpem o acto falho, conseguiu o que queria. Entrou numa faculdade de medicina, longe de casa, longe da família, longe dos amigos. Mas ele não deve chorar agora de saudade, afinal de contas, neste lugar onde ele se encontra nem existe a palavra saudade nos dicionários. Se chorasse não valeria a pena todo o sacrifício que ele fez, estudar no livro cheio de mofo, na claridade da lua que entrava pelas frestas da janela do quarto, abarrotado de irmãos, dormindo no colchão de palha estirado nho chão. Não hei de chorar, assegura-se ele.
Dois longos anos depois, ele se encontrava de volta à terra, não de férias, mas definitivamente, às custas de problemas de saúde, oriundos talvez, da infância pobre, alimentação precária, desnutrição quem sabe, a que a maioria de nós foi sujeita em nossas míseras casas.
Mas ele não abandonou seu sonho, pois um sonho é algo que resiste aos imprevistos da vida, não é um desejo, é um sonho, minha gente.
Continuam os problemas de saúde, assim como continua a sua coragem, a sua sede de vencer na vida, longe de casa, longe da família, longe dos amigos, longe do filho amado.
Falta agora pouco mais de um ano para o menino, sim, porque alguém com um coração tão puro só pode ser um menino, dizia que em pouco mais de um ano o menino formar-se-á Médico. Nem acredito, meu Deus do céu! Eu estou chegando lá.
Miocardiopatia hipertrófica e edema agudo de pulmão:
Causa mortis.
Sim, no final da luta, nosso querido sucumbiu nas garras daquele que ninguém vence. A causa dos seus problemas de saúde era uma doença congênita que propicia a pessoa a ter arritmias cardíacas, causando baixo fluxo sanguíneo para o cérebro e levando ao aparecimento de convulsões, o mal do qual padecia meu amigo. Por infelicidade dele e de todos nós, amigos dele, ele só descobriu a razão de seu padecer, depois de morto.
Depois de toda essa tragédia, aprendi que tudo o que tivermos para falar que possa melhorar a vida de um ente querido nosso, devemos falá-lo enquanto essas palavras podem ser escutadas, não devem ser palavras jogadas ao vento.
Meu querido e saudoso amigo Tchindo, me arrependo por tudo que eu podia ter feito para te ajudar e, porventura, não tenha feito.
Amor eterno.
Dedico essas linhas ao meu saudoso amigo, Alcindo João Pires de Antônia - Tchindo.
Eliezer Monteiro - Rio de Janeiro